As escolas estão matando a criatividade?

postado em: Cotidiano 2

As escolas estão matando a criatividade?Eu tenho um sério problema. Adoro aprender coisas novas. Não importa que seja a coisa mais fútil ou a mais nobre das ciências. Gosto realmente de aprender, mas detesto estudar. Só de pensar em parar as atividades que amo para ler livros que não me interessam e participar de aulas que dão sono simplesmente me desanima. Consigo aprender muito mais em uma conversa entre amigos ou pesquisando na web do que se tentar enfiar à força algo na cabeça. Tudo o que não se parecer com estudo eu assimilo mais rápido. Mas será que o problema é comigo? Analisando nossa época e refletindo sobre um livro que estou terminando de ler, O Ócio Criativo, de Domenico de Masi (falarei dele em outro post), fica cada vez mais nítida a sensação de que o problema está na forma como as coisas nos são apresentadas. Estariam nossos sistemas de ensino e de trabalho errados? As escolas estão matando a criatividade?

Coincidentemente li outro dia um texto de Craig McBreen (www.craigmcbreen.com), dono de uma agência de design em Seattle, que fala justamente sobre esse problema. Compartilho a seguir os conceitos de McBreen (com livres adaptações de minha parte):

As escolas estão matando a criatividade?

Anos atrás o Joãozinho passava a maior parte do seu tempo na escola olhando pela janela da sala de aula e sonhando acordado.

Para ele, a escola era uma prisão – uma penitenciária tão vazia de inspiração que sua imaginação frequentemente saía da sala.

Seu espírito criativo precisava dar uma volta, pois era sufocante demais ali.

Crianças sonham alto

As crianças possuem uma imaginação muito ativa e não têm medo de errar, mas nós frequentemente acabamos perdendo isso quando crescemos. Isso ocorre porque crescemos ou é o sistema de ensino que drena essa criatividade de nós?

Hábitos natos se perdem com o tempo? Ou eles nunca são descobertos? As paixões se perdem.

Fábricas não ensinam nada

Nosso atual sistema de ensino ainda é um produto da era industrial do Século XIX. É um modelo com foco limitado em assuntos específicos e considerados benéficos há muito, muito tempo atrás. Esse sistema esgotado ainda funciona para alguns, mas muita coisa boa está sendo deixada para trás e murchando.

Tamanho único não serve para todos

A maioria dos estudantes recebe uma solução de “tamanho único” e não o pensamento crítico e criativo que eles precisam. As crianças não aprendem da mesma forma. Existem diferentes tipos de inteligência: Cinestésica, musical, linguística, espacial, etc. As pessoas se sobressaem em certas áreas, mas não vão tão bem em outras, e ainda assim nosso sistema obriga as crianças a se moldarem em uma caixa e aprender as mesmas coisas da mesma forma.

Em um trecho de seu livro We Are All Weird (Somos Todos Estranhos), Seth Godin (saiba mais sobre ele) escreve:

Durante a era das massas, (marketing em massa, fabricação em massa, educação em massa, movimentos em massa) era necessário ser normal. Normal era importante porque você precisava (quando exigido) se ‘encaixar’ em algum padrão. Bem, agora o novo normal é ser um pouco ‘anormal’, e os incomuns dificilmente se encaixam perfeitamente em buracos quadrados. A moda agora é ser estranho.

Mas… o Joãozinho é estranho E distraído

Crescendo em um dos mais estimulantes ambientes de todos, as crianças têm a habilidade de se comunicar com qualquer um, em qualquer lugar. O tempo todo. E nós ainda tentamos descobrir por que elas andam tão preocupadas. Se as crianças têm alguma dificuldade, nós geralmente decidimos que há alguma coisa errada com elas e procuramos um médico. Elas estão doentes porque estão aprendendo ou existem defeitos em um sistema que tenta encaixá-las a qualquer custo?

Os princípios fundamentais da educação pública precisam ser demolidos e reconstruídos

As economias pós-industriais são baseadas em criatividade e inventividade. É imperativo que o mundo tenha sistemas de ensino criados para o Século XXI. E com a tecnologia substituindo as pessoas rapidamente, isso não é mais importante do que nunca?

Constantemente ouvimos que os bons empregos estão em outros países. O problema é que raramente pedimos aos nossos estudantes para pensarem criativamente. Impedimos que eles desenvolvam um capital intelectual e espírito criativo.

Quais são as soluções?

  1. Desligar a linha de montagem. Jogar fora o modelo de fábrica para criar uma forma de desenvolvimento mais orgânica e dinâmica. Promover as diferenças nas crianças e criar um currículo que destaque esses talentos únicos.
  2. Os padrões devem acabar. É claro que precisamos dos padrões básicos, mas não apenas em matemática, redação e ciências sociais. Que tal habilidades fundamentais em comunicação, artes, softwares e empreendedorismo? Não há nada errado com os padrões, e sim com a obsessão por eles.
  3. A escola não deve ser uma coisa chata. Mudar o aprendizado em favor do engajamento. Foco em pensamentos críticos e criativos em todas as matérias. Cultivar a inventividade por meio da tecnologia na qual as crianças já estão imersas.
  4. Alimentar o espírito e paixão. Criar condições onde a garotada possa florescer.
  5. Investir em grandes ensinamentos e no desenvolvimento de professores. Imagine o quão criativos os professores podem ser eles não estiverem presos às provas padronizadas.
  6. E, finalmente, aliviar a pressão dos pais. Os pais geralmente distanciam seus filhos de seus verdadeiros talentos em prol de um caminho mais convencional para o sucesso. É preciso eliminar esse espectro.

É hora de mudar

Com cortes de orçamento, o avanço da burocracia e a resistência a mudanças, isso pode não acontecer tão rápido. Ainda assim, é hora de repensar o sistema atual de ensino ou então aquela boa e velha ingenuidade das crianças será uma coisa do passado.

Será que precisamos esperar as grandes e inovadoras empresas de tecnologia como Google, Microsoft ou Facebook (e seus métodos diferenciados de trabalho) forçar essas mudanças, independente do que dizem as atrasadas leis trabalhistas? Não seria mais fácil iniciar esse processo na infância?

Você concorda ou discorda? Isso é uma ilusão, um sonho ou algo pelo qual vale a pena investir?

Seguir Emilio Calil:
Empresário, Palestrante e Escritor. ⚡ Fundador do Marketing de Transformação, que emprega técnicas de autoconhecimento e coerência para elevar o espírito de pessoas e empresas.

2 Responses

  1. Emerson Freire
    | Responder

    Não sei as escolas particulares, mas as escolas públicas matam a criatividade e qualquer outra coisa relacionada a isso. Tive sorte ainda de estudar numa época onde o ensino não era dos piores. Mas a coisa mudou. Mudou para pior e parece que quanto mais tentam reformar os sistemas de ensino, pior fica.

    Eu tenho problema semelhante ao teu Emílio. Só não diria que não gosto de estudar. Gostar eu gosto, só que gosto de estudar o que eu quero estudar. Acontece que no meu caso isso não gera muitos problemas, mas tem gente que não gosta de estudar coisa alguma e fica difícil saber o que fazer com um camarada assim. A escola portanto deveria ajudar quem tem esse problema, só que é mais fácil para o professor mandar o aluno desocupado sair da sala, ou aplicar-lhe uma suspensão, do que aplicar novos métodos que cativem a entenção dos desatentos. Parece que temos dois problemas no ensino, que chaman-se preguiça e descaso.

    Outro problema que vejo, é que a escola virou certo reduto para doutrinação ideológica. Como você disse as escolas deveriam preparar os jovens a serem empreendedores e críticos. Mas acontece de termos muitos professores preocupados em nos ensinarem a mazelas do socialismo e filosofia de cunho marxista, nisso o empreendedorismo vai as favas.

    Mas respondendo sua pergunta, eu penso que isso é algo em que se deve investir sim.

  2. Emílio Calil
    | Responder

    É, meu caro Emerson… É triste ver a qualidade do nosso ensino indo por água abaixo. E não diria que é apenas público não. As escolas particulares estão indo por mesmo buraco. Apesar de ainda oferecerem melhor qualidade, vejo muita molecada entrando na adolescência praticamente analfabeta – afinal, interessa às escolas apenas que as mensalidades sejam pagas. E se os pais não cobram um ensino de qualidade pelo que pagam, então fica tudo por isso mesmo.

    Eu acrescentaria ainda às soluções acima um envolvimento total dos pais no aprendizado da criança. Ainda que a pressão dos pais sobre a escolha profissional dos filhos deva ser reduzida, eles devem estar presentes em todos os outros aspectos – mesmo que seja para contradizer o que a criança aprendeu na escola – e daí sim estimular o pensamento crítico e questionar os professores.

    A… digamos… “salvação” das crianças de hoje está (como sempre esteve) dentro da própria família. Os pais não podem esperar que a escola faça o papel deles, mas, em alguns casos, eles podem fazer o papel da escola se perceberem que a criança não está aprendendo nada ou, como você mesmo disse, se está passando por uma doutrinação que o transformará em mais um número na crescente massa de manobra sem opinião própria.

    É… Esse assunto poderia render um debate interessante.

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